Entre vulcões e fé sombria, nos Açores dos séculos XVI e XVII, onde curar pode ser confissão e o silêncio, a sentença mais perigosa.
Numa ilha perdida no Atlântico, entre o murmúrio do oceano e o silêncio carregado de medo, o passado nunca dorme verdadeiramente. É neste cenário que Diogo Sarmento-Fialho nos conduz pelos Açores dos séculos XVI e XVII, numa coletânea de contos que mergulha nas sombras da Inquisição portuguesa e nos dramas íntimos de quem vivia sob a sua vigilância implacável.
«O Inquisidor de Angra» reúne histórias situadas na cidade de Angra do Heroísmo e nos seus arredores, num tempo em que a fé e o terror andavam de mãos dadas pelas ruas de pedra negra. Os contos entrelaçam personagens que carregam segredos antigos — físicos com saberes proibidos, homens marcados por origens que a lei condenava, mulheres que guardam silêncios mais pesados do que qualquer confissão. Cada narrativa é um retrato humano de uma sociedade em que a suspeita era moeda corrente e a denúncia podia mudar o destino de uma família inteira.
O autor escreve com uma precisão histórica notável e uma prosa densa, atmosférica, que evoca o nevoeiro atlântico, o cheiro da pedra húmida e o peso de viver com medo. Os diálogos são comedidos e tensos, e cada detalhe — um olhar demorado, uns passos antes da aurora, o inventário silencioso de um estranho — carrega o peso de uma ameaça que nunca se nomeia completamente.
O que torna esta obra verdadeiramente singular é a sua capacidade de humanizar todos os lados desta história. Não há vilões simples nem vítimas passivas: há pessoas comuns apanhadas numa engrenagem maior do que elas, tentando sobreviver sem perder o que consideram essencial — a família, a dignidade, ou a própria identidade.
Uma leitura imprescindível para quem aprecia ficção histórica rigorosa, escrita com cuidado literário e coragem moral.
Diogo Sarmento-Fialho
Diogo Sarmento-Fialho é um autor especializado em histórias de Portugal medieval e moderno, com particular interesse pelos períodos de maior complexidade moral e religiosa. Sua obra concentra-se em narrativas que exploram os conflitos entre fé, poder e humanidade, especialmente nos contextos insulares açorianos. Através de uma prosa lírica e atmosférica, Sarmento-Fialho resgata histórias esquecidas dos arquivos históricos, transformando-as em contos que desafiam a certeza e questionam as narrativas convencionais. Sua escrita busca dar voz aos homens e mulheres que viveram à sombra da intolerância, criando retratos psicológicos profundos de personagens marcados pelo medo e pela resistência silenciosa.
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